O menino que conserta o que o Sistema esquece
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O+343 · Onda do Despertar · Sinal 45

O menino que conserta o que o Sistema esquece

Esta coluna se chama Fresta no Chão porque eu sempre entro pelas frestas. Desta vez, literalmente: a parede do dormitório tem uma, e a luz da manhã entra por ela e cai numa cama só.

Eu tinha ido cobrir doações. Um prédio branco de cal descascada, quarenta crianças em fila, um fiscal de casaco cinza carimbando uma prancheta sem olhar pra nenhum rosto. A pauta era essa. Chata, necessária, do tipo que a Luz gosta de ver publicada.

Foi aí que a fila andou e passou por mim um garoto de catorze Pulsos que eu não vou nomear.

Ele não fez nada. Isso é o ponto. Em vinte passos de corredor, ajeitou uma dobradiça com o ombro, girou um parafuso solto num banco com a unha, e encostou a orelha numa caixa d'água que gemia — três consertos sem parar de andar, sem ninguém pedir, sem ninguém ver. Depois sorriu por dois segundos de uma coisa que só ele viu. E apagou o sorriso, ele mesmo, como quem fecha uma porta.

O prédio inteiro chama isso de sorte. A água que sempre volta. As fechaduras que cedem na hora certa. O sino que, nos dias frios, bate um minuto atrasado — um minuto inteiro de cobertor a mais pra quarenta crianças. Sorte tem nome. Eu descobri. E dormia na última cama do dormitório.

Não vou publicar a matéria sobre doações. Desliguei o gravador no meio da manhã e não liguei mais. Há coisas que uma repórter vê e decide que não são pauta. São pessoa.

O Sistema tem uma palavra pra gente que não cabe nas listas dele. Não vou usar a palavra aqui.

Só vou dizer que, naquela manhã, pela primeira vez, uma fresta me devolveu alguma coisa.

— Axion Kaede, Fresta no Chão · O Fuxico